{"id":124,"date":"2020-01-22T12:26:06","date_gmt":"2020-01-22T15:26:06","guid":{"rendered":"http:\/\/ayanagalu.org\/?p=124"},"modified":"2020-01-22T12:26:06","modified_gmt":"2020-01-22T15:26:06","slug":"escultura-ensino-e-o-campo-ampliado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/escultura-ensino-e-o-campo-ampliado\/","title":{"rendered":"Escultura, Ensino e o Campo Ampliado"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-drop-cap\">No s\u00e9culo I d.C. quando Pl\u00ednio escreveu Hist\u00f3ria Natural, o livro que cont\u00e9m a maior parte das informa\u00e7\u00f5es que temos sobre os artistas gregos, encontramos uma tr\u00edplice divis\u00e3o das artes pl\u00e1sticas. Na antiguidade eram chamadas <em>fusoria, plastica<\/em> e <em>scultura<\/em>, sendo a <em>fusoria<\/em> a arte de fundir o metal, <em>plastica<\/em> a arte de modelar a argila ou cera e <em>scultura<\/em> a arte de trabalhar a pedra.\u00a0 Entretanto, conforme <a href=\"https:\/\/www.emartinsfontes.com.br\/escultura-a-p10519\/\">Rudolf Wittkower<\/a>, foi somente na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XV, durante o per\u00edodo do Renascimento, que tivemos as primeiras consolida\u00e7\u00f5es das artes que hoje chamamos de visuais, como \u00e1rea do conhecimento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>A hierarquia medieval estabelecia uma divis\u00e3o do conhecimento em duas linhas. Uma delas era a das \u201cartes liberais\u201d, que na \u00e9poca se limitavam \u00e0s ci\u00eancias lingu\u00edsticas e \u00e0 matem\u00e1tica, sendo o desenho geom\u00e9trico o mais pr\u00f3ximo se tinha de algo relativo \u00e0s artes visuais. Era nessas artes que se desenvolvia o pensamento intelectual. A outra linha art\u00edstica denominada \u201cartes mec\u00e2nicas\u201d, contemplava a pintura, a escultura, o artesanato, entre outras, e dependia somente de uma a\u00e7\u00e3o de habilidade mec\u00e2nica. Nesse momento, surgiu o conceito de um novo perfil de artista, uma pessoa essencialmente diferente dos artes\u00e3os e trabalhadores manuais. Agora o artista exercia sua for\u00e7a intelectual e criativa. A nova gera\u00e7\u00e3o de pintores, escultores e arquitetos lutava para ser admitida nas artes liberais, colocando-se no mesmo n\u00edvel dos ret\u00f3ricos, poetas e estudantes de geometria. Para isso seria preciso reconhecer os fundamentos eruditos da sua arte, passar por um aprendizado te\u00f3rico e se poss\u00edvel contribuir para a teoria das artes. A partir de ent\u00e3o, segundo <a href=\"https:\/\/www.emartinsfontes.com.br\/escultura-a-p10519\/\">Wittkower<\/a>, as considera\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas passaram a acompanhar a pr\u00e1tica art\u00edstica. Esse fato explica o surgimento de in\u00fameros tratados de pintura e escultura durante a era renascentista.<\/p>\n\n\n\n<p>Leon Batista Alberti, em seu tratado de escultura \u201c<em>De statua<\/em>\u201d, apresenta uma divis\u00e3o interessante da pr\u00e1tica escult\u00f3rica em duas categorias: modeladores e os escultores. Os escultores eram de fato os mais respeitados, pois trabalhavam com a supress\u00e3o de mat\u00e9ria, o que de um ponto de vista t\u00e9cnico n\u00e3o abre muita margem para erros de constru\u00e7\u00e3o. Sem contar na dificuldade de tratamento dos materiais, geralmente pedras e madeiras. J\u00e1 os modeladores trabalhavam a forma tridimensional por adi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria e geralmente utilizavam materiais mais pl\u00e1sticos como, por exemplo, a argila ou a cera para posteriormente promover a transfer\u00eancia de material atrav\u00e9s de formas, passando da argila para o gesso ou da cera para o bronze, e assim por diante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi somente no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, no chamado modernismo das artes visuais, que os artistas libertaram a escultura de alguns c\u00e2nones tradicionais que perduraram na disciplina por anos. Surge nesse per\u00edodo uma nova modalidade de produ\u00e7\u00e3o tridimensional, que pode ser denominada como <a href=\"http:\/\/enciclopedia.itaucultural.org.br\/termo325\/assemblage\">constru\u00e7\u00e3o, bricolagem ou <em>assemblage<\/em><\/a>.&nbsp; Cunhado pelo pintor e gravador franc\u00eas Jean Dubuffet (1901-1985), o conceito tem sua origem nos trabalhos de Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963), fazendo men\u00e7\u00e3o a obras que, conforme ele, &#8220;v\u00e3o al\u00e9m das colagens&#8221;. O conceito que norteia produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que se utilizam de <em>assemblage<\/em> \u00e9 a &#8220;est\u00e9tica da acumula\u00e7\u00e3o&#8221;: todo e qualquer tipo de material pode ser incorporado \u00e0 obra de arte.&nbsp;Nesse sentido, a obra de arte tem por objetivo romper efetivamente as fronteiras entre arte e vida cotidiana. O mesmo tipo de ruptura j\u00e1 era ensaiada pelo dada\u00edsmo, especificamente com os <em>ready-made<\/em> de Marcel Duchamp (1887-1968) e pelas obras <em>Merz<\/em> (1919), de Kurt Schwitters (1887-1948). Na ideia de <em>assemblage<\/em> os objetos d\u00edspares reunidos na obra, ainda que produzam um novo conjunto, n\u00e3o perdem o&nbsp; sentido original. Antes de uma s\u00edntese, trata-se&nbsp;de justaposi\u00e7\u00e3o de elementos, na qual \u00e9 poss\u00edvel identificar cada pe\u00e7a no interior do conjunto mais amplo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Rosalind Krauss, em seu texto <a href=\"https:\/\/ayanagalu.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/krauss_rosalind_1979_2008_a_escultura_no_campo_ampliado.pdf\">\u201c<em>A escultura no campo ampliado<\/em>\u201d<\/a>, publicado originalmente em 1979 pela revista <em>October<\/em>, sugere uma nova abordagem do espa\u00e7o que ultrapassa os limites da no\u00e7\u00e3o tradicional da escultura, marcando passagem para a <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/P%C3%B3s-modernidade\">p\u00f3s-modernidade<\/a>. Essa conceitua\u00e7\u00e3o, a meu ver, \u00e9 interessante para compreender ou iniciar a compreens\u00e3o do que vem a ser a arte contempor\u00e2nea. Conforme an\u00e1lise da autora, a no\u00e7\u00e3o de escultura manteve-se intacta da Gr\u00e9cia antiga at\u00e9 o fim do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX, tendo as primeiras quebras na l\u00f3gica tradicional com Rodin e Brancusi.&nbsp; Em compara\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria da pintura, a historiografia da escultura sofreu muito menos oscila\u00e7\u00f5es no modo de produ\u00e7\u00e3o ao longo do tempo. Entretanto, a partir do s\u00e9culo XX essa situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a mudar e o valor do espa\u00e7o tridimensional cresce entre os artistas visuais. Assim, conforme a autora, ao longo dos anos 70, o termo escultura foi utilizado para qualificar uma s\u00e9rie de trabalhos heterog\u00eaneos, esga\u00e7ando o conceito desta categoria e expandindo seu significado sem justificativas adequadas. A dificuldade de enquadrar a nova produ\u00e7\u00e3o em alguma categoria tradicional provocou o alargamento do termo escultura. Segundo as <a href=\"https:\/\/ayanagalu.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/krauss_rosalind_1979_2008_a_escultura_no_campo_ampliado.pdf\">palavras de Krauss (p.129)<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O novo \u00e9 mais f\u00e1cil de ser entendido quando visto como uma evolu\u00e7\u00e3o de formas do passado&#8230; confortamo-nos com essa percep\u00e7\u00e3o de similitude, com essa estrat\u00e9gia para reduzir tudo o que nos \u00e9 estranho, tanto no tempo como no espa\u00e7o, \u00e0quilo que j\u00e1 conhecemos e somos.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>No contexto que pretendo apresentar, \u201ccampo ampliado\u201d n\u00e3o seria uma designa\u00e7\u00e3o exclusiva da escultura, mas sim, uma \u00e1rea comum da arte, uma esp\u00e9cie de centro de encontro onde todas as habilita\u00e7\u00f5es dialogam. Em s\u00edntese, o campo ampliado seria a pr\u00f3pria arte contempor\u00e2nea do ponto de vista produtivo. A <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/202452\">escultura, por exemplo<\/a>, \u00e9 uma das portas de acesso a esse campo, assim como a pintura, a gravura, o desenho, a cer\u00e2mica, a fotografia, o teatro, enfim, as disciplinas curriculares encontradas em cursos de artes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ricardo Basbaum, artista, professor e cr\u00edtico de arte, h\u00e1 algum tempo vem trabalhando o conceito \u201cartista etc\u201d. De um modo geral, esse conceito trata da rela\u00e7\u00e3o entre as atividades que um artista exerce paralelamente \u00e0 sua pr\u00e1tica art\u00edstica e como essas atividades influenciam o trabalho do artista e ao mesmo tempo s\u00e3o por ele influenciadas. Este <em>artista etc<\/em>, segundo Basbaun, decorre do artista multim\u00eddia, do interm\u00eddia e do conceitual. Configura o perfil do artista contempor\u00e2neo, que produz seu trabalho de modo h\u00edbrido. Essas obras que surgem no limiar entre pintura e escultura ou fotografia e desenho, ou ent\u00e3o uma instala\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica que n\u00e3o se define nem como teatro, arquitetura e tampouco como escultura, criam a sensa\u00e7\u00e3o de que t\u00e9cnica nas artes \u00e9 algo superado e adormecido no modernismo. <\/p>\n\n\n\n<p>De fato, se as produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas em arte forem analisadas simplesmente pelo vi\u00e9s produtivo, realmente se constata o desaparecimento da pureza t\u00e9cnica ou da habilita\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do artista. Entretanto, se pensarmos no campo de ensino das artes e analisarmos do ponto de vista que contemple a forma\u00e7\u00e3o destes artistas, de como eles constru\u00edram a sua no\u00e7\u00e3o de arte, de espa\u00e7o e de produ\u00e7\u00e3o, perceberemos que todos, ou boa parte destes, buscaram uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e ent\u00e3o procuraram expandir sua linguagem de modo transcendente \u00e0s bases da sua habilita\u00e7\u00e3o original, tornando-se assim um <em>artista etc<\/em>, ou ent\u00e3o retomando o conceito&nbsp; de Kraus, um frequentador do campo ampliado. Ou seja, formaram-se pintores, escultores, desenhistas, gravadores ou ceramistas, produziram nas suas \u00e1reas e naturalmente expandiram sua linguagem original para o tempo e espa\u00e7o total da arte, que converge para o \u201ccampo ampliado das artes\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso revela que, se, por um lado, os artistas ditos contempor\u00e2neos promovem a quebra da tradi\u00e7\u00e3o e rompem com os limites disciplinares da arte criando obras h\u00edbridas; por outro lado, isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por haver uma tradi\u00e7\u00e3o ou forma\u00e7\u00e3o a ser transgredida. Por esse motivo, acredito que a arte no \u00e2mbito do ensino deve ser divida em habilita\u00e7\u00f5es, ainda que, o objetivo pretendido para o aluno seja a transgress\u00e3o dessa divis\u00e3o, ou melhor, a transcend\u00eancia por meio de maturidade criativa.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os artistas ditos contempor\u00e2neos promovem a quebra da tradi\u00e7\u00e3o e rompem com os limites disciplinares da arte criando obras h\u00edbridas, mas isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por haver uma tradi\u00e7\u00e3o ou forma\u00e7\u00e3o a ser transgredida.<\/p>","protected":false},"author":3,"featured_media":134,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[13,14,15,17,25,26,27,33,46,50,65,68,74,85,145,171],"class_list":["post-124","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ayan-agalu","tag-arte","tag-artes","tag-artes-visuais","tag-assemblage","tag-bricolage","tag-bricolagem","tag-campo-ampliado","tag-ceramica","tag-curriculo","tag-desenho","tag-ensino","tag-escultura","tag-fotografia","tag-gravura","tag-pintura","tag-teatro"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/igorcastellano.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/insta_20200122_escultura_campo-ampliado.png","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=124"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}