{"id":137,"date":"2020-01-28T20:04:52","date_gmt":"2020-01-28T23:04:52","guid":{"rendered":"http:\/\/ayanagalu.org\/?p=137"},"modified":"2020-01-28T20:04:52","modified_gmt":"2020-01-28T23:04:52","slug":"masculinidade-e-a-metamorfose-da-paternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/masculinidade-e-a-metamorfose-da-paternidade\/","title":{"rendered":"Masculinidade e a Metamorfose da Paternidade"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-drop-cap\">Ser pai (no) presente \u00e9 assumir m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es. \u00c9 aceitar nossos limites e focar em prioridades. \u00c9 ampliar a toler\u00e2ncia e encontrar novas fronteiras para a paci\u00eancia. \u00c9 nos tornarmos verdadeiros educadores. \u00c9 existir fora de si. \u00c9 aprender a amar incondicionalmente. \u00c9 contrapormos estruturas sociais com o compromisso de pular no incerto, com a \u00fanica garantia da metamorfose.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>A paternidade \u00e9 uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o. Principalmente quando decidimos romper (ou pelo menos tentar) com as estruturas da tradi\u00e7\u00e3o e sermos pais presentes e participativos; dividir ao inv\u00e9s de ajudar. Se a <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-026X2013000100014\">masculinidade estrutural hegem\u00f4nica<\/a> reproduz padr\u00f5es, papeis, regras, conven\u00e7\u00f5es sobre comportamentos e atitudes socialmente adequados, reconstruir o que entendemos por paternidade \u00e9 revolucionar estruturas sociais. Essas estruturas s\u00e3o recorrentemente reproduzidas por homens e mulheres ao longo do processo da socializa\u00e7\u00e3o. Por um lado, aprendemos desde cedo que o padr\u00e3o \u00e9 sermos pais relapsos, ausentes, descomprometidos, insens\u00edveis, duros, ef\u00eameros.&nbsp;Por outro, desejamos mudan\u00e7as. <\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o desafio contempor\u00e2neo da masculinidade \u00e9 menos debatido do que deveria ser. Seja entre mulheres, homens, casais, m\u00e3es, pais, filhos, psic\u00f3logos, pediatras, etc. Queremos melhores homens, melhores pais. Mas o que fazemos, o que a sociedade faz, al\u00e9m da renovada press\u00e3o para que sejam melhores? A consci\u00eancia sobre a estrutura da masculinidade hegem\u00f4nica \u00e9 o primeiro passo para educar meninos e homens a se transformarem e ajudarem a dissolver estruturas que condicionam seus comportamentos, os constrangem e, sobretudo, oprimem mulheres. Algumas iniciativas simples na <a href=\"https:\/\/piangers.com\/papaipop\">literatura<\/a>, <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/globonews\/jornal-globonews-edicao-das-10\/video\/masculinidade-e-o-papel-do-homem-sao-repensados-7991955.ghtml\">m\u00eddia<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.parentinscience.com\/\">sociedade civil<\/a> t\u00eam ajudado bastante e o simples fato de falarmos sobre isso j\u00e1 \u00e9 um grande passo.<\/p>\n\n\n\n<p>E qual garantia de essa utopia de mudar o papel da paternidade dar certo?&nbsp;Nenhuma. A \u00fanica certeza \u00e9 a incerteza. O \u00fanico destino \u00e9 a metamorfose. Nem t\u00e3o tr\u00e1gica como no livro de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_Metamorfose\">Franz Kafka<\/a>, ela produz estranhamento, desconforto, descoberta e, finalmente, reconforto. O primeiro est\u00e1gio da metamorfose nasce do encantamento, da expectativa do nascimento que chegar\u00e1 e nos apresentar\u00e1 uma dimens\u00e3o nova da vida. Tudo \u00e9 expectativa e nos preparamos para sermos os melhores pais que j\u00e1 pisaram neste solo. Recorrentemente pensamos: &#8220;com a gente ser\u00e1 diferente&#8221;. \u00c9 a\u00ed que acordamos para a realidade. Estruturas sociais n\u00e3o s\u00e3o como a lata de refrigerante aberta h\u00e1 dias na geladeira, que voc\u00ea joga fora assim que percebe que ela est\u00e1 ali e j\u00e1 n\u00e3o serve para nada. Elas s\u00e3o a pr\u00f3pria vontade de tomar o refrigerante. A quest\u00e3o \u00e9 bem mais profunda, estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p>Da constata\u00e7\u00e3o do tamanho da empreitada surge uma segunda fase. Ela \u00e9 de pavor e desencanto. O nascimento gera mudan\u00e7as nas rotinas, prioridades e liberdades pessoais. Nunca mais dormiremos at\u00e9 tarde, trabalharemos o quanto quisermos ou seremos os primeiros a decidir a programa\u00e7\u00e3o do dia? N\u00e3o. Pelo menos n\u00e3o da forma como era antes. E isso se soma \u00e0 responsabilidade de assumir uma profiss\u00e3o totalmente nova, com complexidade alt\u00edssima e zero treinamento: a de pai presente. Lembro de algumas palavras que anotei quando nasciam os primeiros dentes da Laura:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>&#8220;O nascimento dos primeiros dentes \u00e9 uma fase bem cruel. Quase tudo regressa \u00e0 estaca zero, desde a necessidade de colo aos resmungos incessantes, passando pelas crises antes de o galo cantar. J\u00e1 est\u00e1vamos sentido saudades do amigo do &#8220;Hora Um&#8221;. O problema \u00e9 que as m\u00e3es e os pais tendem a confiar que a fase ruim passou. Sempre nos dizem: &#8220;depois do nascimento, o desconforto passa&#8221;, &#8220;quando forem para casa ser\u00e1 uma maravilha&#8221;, &#8220;o final dos tr\u00eas meses ser\u00e1 pren\u00fancio do para\u00edso&#8221;, &#8220;quando come\u00e7ar a caminhar a coisa alivia&#8221;. A verdade \u00e9 que pais s\u00e3o eternos iludidos. \u00c9 o famoso pacto secreto involuntariamente adotado por pais e m\u00e3es que consagra mais ou menos o seguinte: &#8220;tenha f\u00e9 que, talvez um dia, a vida volte a ser menos insana&#8221;. Acho que na verdade \u00e9 o amor cada vez maior que sentimos, al\u00e9m dos lapsos de mem\u00f3ria, que nos faz valorizar os progressos e momentos de felicidade em detrimento das fases ruins. Que venham este e mais <em>tantos<\/em> outros dentinhos&#8230;&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c0quela \u00e9poca, as palavras j\u00e1 indicavam o surgimento de uma terceira fase, a da aceita\u00e7\u00e3o e busca pela efici\u00eancia. Come\u00e7amos a ter no\u00e7\u00e3o da nossa incapacidade de controlar tudo, da impossibilidade de sermos pais perfeitos. Passamos a focar em resolver e aproveitar o que verdadeiramente importa, na paternidade e fora dela. Eu diria que \u00e9 nessa fase que surge verdadeiramente o amor. \u00c9 quando, geralmente \u00e0 dist\u00e2ncia, cai a ficha de que j\u00e1 n\u00e3o sabemos mais o que era felicidade sem essa figurinha. Para professores, como eu, \u00e9 justamente quando come\u00e7amos (e apenas come\u00e7amos) a sentir a responsabilidade e os limites que temos no processo de aprendizagem. Passamos a nos tornar educadores.&nbsp; Certamente outras fases vir\u00e3o e recome\u00e7ar\u00e3o ao longo dessa jornada, ao longo da qual um pouco de cada uma permanecer\u00e1. Todas elas nos ensinam a aceitar o incerto e a mudan\u00e7a. A&nbsp;nos tornarmos parte agente da revolu\u00e7\u00e3o; a sermos nada mais que metamorfoses ambulantes.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser pai (no) presente \u00e9 assumir m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es. \u00c9 aceitar nossos limites e focar em prioridades. \u00c9 ampliar a toler\u00e2ncia e encontrar novas fronteiras para a paci\u00eancia. \u00c9 nos tornarmos verdadeiros educadores. \u00c9 existir fora de si. \u00c9 aprender a amar incondicionalmente. \u00c9 contrapormos estruturas sociais com o compromisso de pular no incerto, com a \u00fanica garantia da metamorfose.<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":139,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[113,111,112,120,136,137,138,169],"class_list":["post-137","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ayan-agalu","tag-mae","tag-masculinidade-hegemonica","tag-maternidade","tag-metamorfose","tag-pai","tag-papeis-sociais","tag-paternidade","tag-sociedade"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/igorcastellano.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/insta_20200128_masculinidade-e-paternidade.png","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=137"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/139"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}