{"id":148,"date":"2020-02-07T10:53:01","date_gmt":"2020-02-07T13:53:01","guid":{"rendered":"http:\/\/ayanagalu.org\/?p=148"},"modified":"2020-02-07T10:53:01","modified_gmt":"2020-02-07T13:53:01","slug":"universidade-sitiada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/universidade-sitiada\/","title":{"rendered":"Universidade Sitiada"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-drop-cap\">Nesses tempos obscuros, parece chover no molhado sair em defesa da Ci\u00eancia e do pensamento cr\u00edtico, a raz\u00e3o de ser da Universidade. No entanto, n\u00e3o podemos aceitar que, pela repeti\u00e7\u00e3o, a excresc\u00eancia se torne banal e nos ven\u00e7a no cansa\u00e7o de pensar em criticar o turbilh\u00e3o de insanidades impens\u00e1veis que nos atinge diariamente. N\u00e3o nos enganemos pelo costume com a nova realidade de ataques rotineiros: Universidade est\u00e1 cada vez mais sitiada, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s ru\u00ednas.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Or\u00e7amento reduzido pela metade, bolsas de estudo cortadas, contrata\u00e7\u00f5es congeladas, aumento da vigil\u00e2ncia injustificada sobre atividades e processos corriqueiros, amea\u00e7a de redu\u00e7\u00e3o de remunera\u00e7\u00f5es, perda de benef\u00edcios, etc. Essa \u00e9 a parte concreta de uma persegui\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica contra um bode expiat\u00f3rio que existe apenas nos contos de fada. <strong>A Universidade est\u00e1 sitiada, alvo de press\u00f5es de fora e de dentro de seus muros. Tanto por quem a abomina como reflexo da sua pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia, quanto por quem teme as dificuldades e responsabilidades envolvidas na constru\u00e7\u00e3o do conhecimento cr\u00edtico.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vejo essas duas raz\u00f5es como marcas geracionais. \u00c9 claro que h\u00e1 in\u00fameras causas contextuais e individuais que explicam em cada caso as press\u00f5es \u00e0 Universidade nos dias atuais, mas tendo a dar grande valor a mudan\u00e7as geracionais para explicar fen\u00f4menos agregados. Explica\u00e7\u00f5es estruturais n\u00e3o descrevem a realidade de todos os casos, mas d\u00e3o boas no\u00e7\u00f5es de como amplos processos se desenvolvem.&nbsp; Talvez por lecionar ano ap\u00f3s ano a turmas diferentes de alunos, percebo mudan\u00e7as comportamentais sutis que passam a predominar em novas gera\u00e7\u00f5es em oposi\u00e7\u00e3o a anteriores. Justamente, com essa observa\u00e7\u00e3o percebo que talvez tenhamos um choque geracional em grande escala que hoje questiona o sentido que a minha gera\u00e7\u00e3o atribuiu \u00e0 Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nasci na dita<strong> gera\u00e7\u00e3o Y<\/strong>, os populares <em>Millenials<\/em>. Nossa caracter\u00edstica social mais b\u00e1sica, sobretudo no Brasil, era o acesso a oportunidades inimagin\u00e1veis a nossos pais. Consumo, conforto, lazer, amparo dom\u00e9stico tinham apenas uma contrapartida necess\u00e1ria: o estudo. A necessidade de romper com a tradi\u00e7\u00e3o da maioria das fam\u00edlias e se formar em uma Universidade era a cobran\u00e7a b\u00e1sica. Mais do que isso, o curso superior n\u00e3o era s\u00f3 uma expectativa familiar. A maioria de n\u00f3s via como o caminho natural para a inser\u00e7\u00e3o e o sucesso profissional, mesmo se logo ali f\u00f4ssemos deixar nossa profiss\u00e3o para assumir novos rumos, novas experi\u00eancias. A Universidade era vista como uma garantia necess\u00e1ria. Uma institui\u00e7\u00e3o que respeit\u00e1vamos n\u00e3o apenas pelas expectativas familiares, mas um est\u00e1gio de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento, de grupos, de valores, de maturidade, de independ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>gera\u00e7\u00e3o Z<\/strong>, que nasceu a partir do final dos anos 1990, pressionou por um dos lados a hegemonia social da institui\u00e7\u00e3o Universidade. A Universidade n\u00e3o mais det\u00e9m o monop\u00f3lio do acesso ao conhecimento. Apesar de ainda assegurar o diploma formal, muitas vezes informa\u00e7\u00f5es mais interessantes e atualizadas est\u00e3o dispon\u00edveis fora da sala de aula. A internet garantiu acesso a informa\u00e7\u00e3o e conhecimento instant\u00e2neo. O professor n\u00e3o \u00e9 mais respeitado pela informa\u00e7\u00e3o que det\u00e9m, na realidade sua fun\u00e7\u00e3o na sociedade torna-se questionada. O que faz afinal o professor? S\u00f3 d\u00e1 aula? Precisamos dele realmente? O Google+YouTube+Wikipedia n\u00e3o fariam melhor servi\u00e7o? De fato, fomos pegos desprevenidos por uma galera que procura prazer moment\u00e2neo, com baixa capacidade de concentra\u00e7\u00e3o e muito ciente de seus direitos e interesses pessoais. S\u00e3o incr\u00edveis na mobiliza\u00e7\u00e3o pelo que gostam e defendem, mas arredios a cumprirem deveres e fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de estudantes ou trabalhadores empregados. O mais interessante \u00e9 que al\u00e9m de terem mudado a vis\u00e3o sobre o local da Universidade na obten\u00e7\u00e3o de conhecimento, j\u00e1 questionam tamb\u00e9m a import\u00e2ncia da Universidade no sucesso profissional. Se <em>YouTubers<\/em> e <em>Digital Influencers<\/em> ganham rios de dinheiros sem qualquer diploma formal, para que me servir\u00e1 a Universidade? Nem como garantia b\u00e1sica ela funciona mais. Cursos de gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito extensos e generalistas para o que o mercado pede e a juventude deseja. A\u00ed n\u00e3o assusta a multiplica\u00e7\u00e3o de tecn\u00f3logos e cursos on-line massivos de qualquer coisa que satisfa\u00e7a o interesse moment\u00e2neo e eventuais <em>booms<\/em> de mercado. A Universidade tem sentido para quem?<\/p>\n\n\n\n<p>Concomitantemente, a <strong>gera\u00e7\u00e3o que me criou, a X<\/strong> (e fins da <em>Baby Boomer<\/em>), tamb\u00e9m se choca com o que produziu em seus filhos. Ao se esfor\u00e7ar dedicando a vida inteira pela estabilidade financeira\/familiar, por garantir liberdades e oportunidades que nunca tiveram aos seus pr\u00f3prios filhos, a nova terceira idade come\u00e7a a questionar se realmente valeu a pena confiar todas as fichas na Universidade. Afinal o que ela produziu? Muitos filhos j\u00e1 s\u00e3o adultos e ainda nem conseguiram independ\u00eancia financeira. Al\u00e9m do mais, se tornaram mais conhecedores que os pais e cheio de arrog\u00e2ncia por terem tido acesso a conhecimento cr\u00edtico e formal. \u00c9 hora da revolta. Por arrependimento ou frustra\u00e7\u00e3o, passam a se comportar de forma a questionar a autoridade intelectual dos filhos. Recebem e disseminam <em>fake news<\/em> sobre qualquer coisa, seguem com idolatria ocultistas digitais de plant\u00e3o, assumem qualquer conhecimento de forma passiva e acr\u00edtica. Buscam recuperar, em atalhos perigosos, o aprofundamento do conhecimento que eles pr\u00f3prios recusaram ao privilegiar o trabalho e a estabilidade familiar. Ademais, por quando muito terem frequentado a Universidade por muito menos tempo que seus filhos, desconhecem o que l\u00e1 ocorre atualmente e questionam o processo de constru\u00e7\u00e3o de conhecimentos que s\u00f3 gera incertezas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa realidade \u00e9 predominante em classes m\u00e9dias de centros urbanos. Destoa da interpreta\u00e7\u00e3o geracional o caso de uma pequena minoria de fam\u00edlias urbanas mais intelectualizadas que viram seus membros ascenderem no conhecimento acad\u00eamico para n\u00edveis e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisa j\u00e1 nos anos 70, 80 e 90. No outro extremo mais amplo, em muitas regi\u00f5es do interior ou zonas de pobrezas, o padr\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o Y nem se verificou, apesar de pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas recentes terem contribu\u00eddo para diminuir esse abismo. N\u00e3o obstante, a dist\u00e2ncia da realidade universit\u00e1ria auxilia a dissemina\u00e7\u00e3o do desconhecimento sobre o que l\u00e1 se faz e a necessidade de sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Este \u00e9 o cen\u00e1rio que vislumbro hoje. A Universidade est\u00e1 pressionada por duas gera\u00e7\u00f5es que questionam seus valores b\u00e1sicos de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de conhecimento cr\u00edtico, al\u00e9m da sua fun\u00e7\u00e3o de formar profissionais. As \u00e1reas do conhecimento n\u00e3o paradigm\u00e1ticas, cuja forma\u00e7\u00e3o situa-se na incerteza e diversidade de ideias e perspectivas te\u00f3ricas s\u00e3o as que mais sofrem press\u00f5es. As Humanidades n\u00e3o produzem respostas r\u00e1pidas \u00e0s ang\u00fastias sociais, questionam certezas rasas e formam trabalhadores qualificados a pensar, a questionar e n\u00e3o a executar aptid\u00f5es meramente t\u00e9cnicas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E qual ser\u00e1 a sa\u00edda para a Universidade? Acomodar-se seria, por um lado, aceitar a vis\u00e3o revisionista anti-intelectual dos mais velhos e reacion\u00e1rios e reduzir a universidade a \u00e1reas t\u00e9cnicas. Por outro, envolveria encher a sala de aula de atividades que aumentem a satisfa\u00e7\u00e3o da nova gera\u00e7\u00e3o, transformando professores em <em>YouTubers<\/em> cheios de gra\u00e7a e com milhares de <em>likes<\/em>. \u00c9 \u00f3bvio que a Universidade n\u00e3o sair\u00e1 a mesma desse cerco, mas precisa necessariamente render-se e destruir seus fundamentos de estimular o conhecimento cr\u00edtico derivado de muito estudo e debate plural? N\u00e3o tenho a resposta, apenas um diagn\u00f3stico sincero, mas cheio de limites. Carrego tamb\u00e9m a convic\u00e7\u00e3o de que a Universidade ainda tem o seu lugar e que precisa lutar para mostr\u00e1-lo a sociedade antes de assumir por completo o veredicto da derrota e da ru\u00edna.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Universidade est\u00e1 sitiada, alvo de press\u00f5es de fora e de dentro de seus muros. 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