{"id":176,"date":"2020-03-05T21:40:27","date_gmt":"2020-03-06T00:40:27","guid":{"rendered":"http:\/\/ayanagalu.org\/?p=176"},"modified":"2020-03-05T21:40:27","modified_gmt":"2020-03-06T00:40:27","slug":"a-ciencia-do-glamour","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/a-ciencia-do-glamour\/","title":{"rendered":"A Ci\u00eancia do Glamour"},"content":{"rendered":"<p class=\"has-drop-cap\">A cada dia que passa, tenho a impress\u00e3o de que o sistema de forma\u00e7\u00e3o de pesquisadores e avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa cient\u00edfica no Brasil \u00e9 fundado no incentivo \u00e0 prioriza\u00e7\u00e3o do glamour acad\u00eamico em detrimento da qualidade do trabalho desenvolvido. Tanto em n\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de p\u00f3s-graduandos (disserta\u00e7\u00f5es e teses) quanto na avalia\u00e7\u00e3o da qualifica\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, pecamos em sobrevalorizar o prest\u00edgio e o <em>status<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito da forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, \u00e9 recorrente a vista grossa na exig\u00eancia de n\u00edveis m\u00ednimos de qualidade em trabalhos cient\u00edficos. \u00c9 claro que h\u00e1 sempre fatores subjetivos envolvidos na an\u00e1lise de qualidade. Cada avaliador pode possuir par\u00e2metros e crit\u00e9rios b\u00e1sicos distintos. No entanto, creio que pelo menos dois crit\u00e9rios poderiam ser considerados prioritariamente. Primeiro, o uso rigoroso (n\u00e3o r\u00edgido) dos estudos e dados com que pesquisadores se propuseram trabalhar. N\u00e3o estou falando aqui de toda a literatura ou dados dispon\u00edveis, mas do recorte espec\u00edfico proposto pelo pesquisador. Se a avalia\u00e7\u00e3o da base bibliogr\u00e1fica e dados referenciados for superficial, obviamente o trabalho possui limites. O segundo crit\u00e9rio \u00e9 o desenvolvimento cont\u00ednuo do estudante naquele est\u00e1gio de forma\u00e7\u00e3o. Ou seja, sua evolu\u00e7\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o ao que era anteriormente; suas avalia\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias. Entretanto, fatores mais objetivos como esses s\u00e3o recorrentemente ignorados em prol de an\u00e1lises menos objetivas, possivelmente relacionadas a v\u00ednculos pessoais e a agenda de pesquisa do orientador ou avaliadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse padr\u00e3o comportamental produz incentivos para a sua reprodu\u00e7\u00e3o. Certos de que a qualidade do trabalho \u00e9 fator secund\u00e1rio, a busca por forma\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o profissional acad\u00eamica acaba recorrentemente baseando-se na constru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos interpessoais e filia\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica que produza status e visibilidade. Se pouco importam os crit\u00e9rios de qualidade cient\u00edfica m\u00ednimos do trabalho que desenvolvem, estudantes focam na forma\u00e7\u00e3o em centros acad\u00eamicos destacados mais pelo charme que carregam do que pela excel\u00eancia do trabalho acad\u00eamico. A prioridade \u00e9 criar redes de boas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, realizar forma\u00e7\u00e3o em centros de grande notoriedade e inserir-se em inst\u00e2ncias de grande prest\u00edgio, com base em indica\u00e7\u00f5es e v\u00ednculos pessoais preciosos. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que frequentemente concursos p\u00fablicos s\u00e3o suspensos judicialmente por conta de favorecimentos ou desfavorecimentos de candidatos constru\u00eddos desde o tempo da forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Muitos daqueles que se rebelam frente a casos como esses e buscam a via judicial n\u00e3o procuram transformar o sistema. Apenas sentem-se inconformados de n\u00e3o terem sido eles os favorecidos da vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Internamente \u00e0s Universidades, o mesmo ocorre na distribui\u00e7\u00e3o de recursos e favores. Muitas vezes, recursos e incentivos s\u00e3o negociados no cafezinho e n\u00e3o em processos p\u00fablicos e transparentes. Por que tal professor foi selecionado para um cargo de gest\u00e3o totalmente distinto de suas compet\u00eancias t\u00e9cnicas? Por que aquela quantidade de bolsas de estudos, recursos e espa\u00e7o f\u00edsico foram concedidos a tal Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o ou Departamento? Por que tal pesquisador obteve apoio institucional a seu projeto, evento, pesquisa e\/ou viagem cient\u00edfica? &nbsp;Processos internos s\u00e3o sofisticados e institucionalizados gradualmente, mas muito das escolhas e direcionamentos de bases pessoais permanecem existindo na cultura institucional. Basta entender que, no passado, professores eram convidados, n\u00e3o selecionados, a ingressar no trabalho docente das Universidades P\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas institui\u00e7\u00f5es supra-universit\u00e1rias do sistema de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancia e Tecnologia (C&amp;T) do Brasil o mesmo parece ocorrer. Favorecimentos e desfavorecimentos de pessoas e institui\u00e7\u00f5es \u00e0s quais pertencem s\u00e3o comuns em defini\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e t\u00e9cnicas no \u00e2mbito de ag\u00eancias de avalia\u00e7\u00e3o e fomento. Quem ganhar\u00e1 um financiamento, quais sugest\u00f5es ser\u00e3o ouvidas em reuni\u00f5es, que sistema de avalia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 adotado, quem ser\u00e1 ou n\u00e3o representante institucional em conselhos s\u00e3o defini\u00e7\u00f5es que carregam geralmente mais crit\u00e9rios fundados em alian\u00e7as pol\u00edticas (inevit\u00e1veis) e pessoais do que o debate s\u00e9rio de argumentos ou compet\u00eancias t\u00e9cnicas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E no \u00e2mbito das produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas? Decis\u00f5es e processos editoriais de revistas cient\u00edficas e editoras de livros s\u00e3o repletos de influ\u00eancias de cunho pessoal e auto interessado. Comportamentos poucos republicanos n\u00e3o s\u00e3o incomuns: prazos colossais de decis\u00e3o editorial e publica\u00e7\u00e3o, pareceres mal fundamentados de avaliadores supostamente \u00e0s cegas, exig\u00eancia de contribui\u00e7\u00e3o em dinheiro do autor, decis\u00f5es duvidosas sobre enquadramento ao escopo, e at\u00e9 origem institucional e nacionalidade do autor valem muitas vezes mais que a qualidade do trabalho apresentado. Concomitantemente, a sistem\u00e1tica de qualifica\u00e7\u00e3o de peri\u00f3dicos cient\u00edficos segue o mesmo problema da pessoalidade, o que ocorre em duas dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira est\u00e1 na ado\u00e7\u00e3o ampla do fator de impacto como crit\u00e9rio quase exclusivo de avalia\u00e7\u00e3o da qualidade do peri\u00f3dico cient\u00edfico. De fato, a populariza\u00e7\u00e3o da pesquisa cient\u00edfica \u00e9 um valor essencial na qualifica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. &nbsp;Entretanto, o que pouco se questiona \u00e9 se \u00e9 poss\u00edvel auferir a profundidade e qualidade da pesquisa exclusivamente pela sua proje\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o que, em ess\u00eancia, o fator de impacto mede. Os incentivos s\u00e3o claros, a popularidade se torna um valor mais importante que a busca pela excel\u00eancia. O fen\u00f4meno do pesquisador <em>pop<\/em>, sempre presente na m\u00eddia e redes sociais, mas que n\u00e3o necessariamente se dedica \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de pesquisa na vanguarda do conhecimento se torna recorrente. E isso se liga \u00e0 quest\u00e3o formativa que debati acima. Estudantes percebem mais valor em seguir esse caminho e se filiar a tais pr\u00e1ticas, produzindo um c\u00edrculo vicioso que n\u00e3o assegura o desenvolvimento de pesquisas cient\u00edficas de excel\u00eancia e socialmente relevantes. Popularizar a ci\u00eancia est\u00e1 longe de ser um problema. O desafio surge quando ser popular, adquirir prest\u00edgio social e visibilidade tornam-se o fim mais precioso da atividade cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda dire\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica na sistem\u00e1tica de qualifica\u00e7\u00e3o de peri\u00f3dicos cient\u00edficos est\u00e1 no sistema permanente de favorecimento de peri\u00f3dicos cient\u00edficos vinculados a institui\u00e7\u00f5es de grande prest\u00edgio ou significativa influ\u00eancia pol\u00edtica nas avalia\u00e7\u00f5es. Muitas vezes, fatores subjetivos s\u00e3o adotados como complemento ao fator de impacto, como forma de proteger interesses de sujeitos de preponder\u00e2ncia tradicional eventualmente prejudicados pelas m\u00e9tricas vigentes (Google Scholar, Scopus, Web of Science). Aqui, novamente, o prest\u00edgio e os v\u00ednculos interpessoais contam muito. Complementa o quadro a sistem\u00e1tica supramencionada de bloqueio impl\u00edcito de produ\u00e7\u00f5es cient\u00edficas nessas mesmas revistas de excelente avalia\u00e7\u00e3o \u00e0 jovens pesquisadores, ou mesmo a publica\u00e7\u00e3o cruzada de artigos de institui\u00e7\u00f5es e Programas que mant\u00e9m revistas de estrato superior.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00edrculo vicioso s\u00f3 se agrava \u00e0 medida que produ\u00e7\u00f5es com maior impacto e\/ou favorecidas institucionalmente ainda s\u00e3o o crit\u00e9rio principal de avalia\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de bolsas de estudos a Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o, fator que determinar\u00e1 a escolha de estudantes sobre onde estudar. Centros de proje\u00e7\u00e3o, n\u00e3o necessariamente com maior qualidade nas fun\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o e pesquisa, continuar\u00e3o sendo os mais atraentes. Com poucas exce\u00e7\u00f5es, centros perif\u00e9ricos, al\u00e9m de n\u00e3o possuir incentivos sociais para a perman\u00eancia de estudantes e pesquisadores na regi\u00e3o (economia e infraestrutura local subdesenvolvida), s\u00e3o gravemente desfavorecidos nessa l\u00f3gica desigual, o que contribui para a concentra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do desenvolvimento em grandes centros urbanos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que minha opini\u00e3o est\u00e1 pautada pela experi\u00eancia pessoal. Sou professor concursado de uma Universidade Federal no interior do pa\u00eds. Trabalho arduamente em prol da qualidade das minhas atividades docentes (pesquisa, ensino, extens\u00e3o e gest\u00e3o), geralmente para al\u00e9m da carga hor\u00e1ria pela qual sou remunerado. Procuro respeitar regras e processos institucionais e sou exigente (\u00e0s vezes, excessivamente) com a qualidade do meu pr\u00f3prio trabalho e dos estudantes e pesquisadores que trabalham comigo. Em minha forma\u00e7\u00e3o, tomei decis\u00f5es pautadas na prioriza\u00e7\u00e3o da qualidade do que estava fazendo, em detrimento de vantagens pessoais ou ascens\u00e3o profissional. Um exemplo disso \u00e9 que decidi cursar doutorado sandu\u00edche na \u00c1frica do Sul ao inv\u00e9s de um centro renomado no Norte (EUA ou Europa), pois era o que a minha pesquisa de doutorado exigia &#8211; uma adequada pesquisa de campo. Estou longe de ser infal\u00edvel e tranquilo com esta postura. Erro recorrentemente e sofro muito com v\u00e1rias decis\u00f5es que poderiam ser mais f\u00e1ceis e naturais. Como qualquer ser humano me questiono sobre as escolhas profissionais que tomei e tomo diariamente. Mas assumo a responsabilidade e os efeitos colaterais dos meus atos. A quest\u00e3o chave \u00e9 que este n\u00e3o \u00e9 um problema de ordem exclusivamente pessoal, haja vista as in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es semelhantes de colegas de institui\u00e7\u00f5es centrais e perif\u00e9ricas, no Brasil e exterior. Ou seja, \u00e9 uma realidade social amplamente estabelecida.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, o horizonte anuncia mais turbul\u00eancias. A atual proposta de reforma administrativa gestada pelo Governo Federal n\u00e3o resolve o problema. Ao contr\u00e1rio, o agrava. Trata o servi\u00e7o prestado pelo Estado, entre eles Educa\u00e7\u00e3o e C&amp;T, exclusivamente como uma mat\u00e9ria de ordem fiscal, como de resto o neoliberalismo faz com toda a pol\u00edtica p\u00fablica. Prop\u00f5e reduzir, enxugar a m\u00e1quina p\u00fablica e arrochar remunera\u00e7\u00f5es. O resultado ser\u00e1 o oposto da desejada amplia\u00e7\u00e3o da qualidade e impessoalidade burocr\u00e1tica. Com menos gente e menos recursos se reproduzir\u00e3o ainda mais os incentivos e a corrida \u00e0 garantia de privil\u00e9gios a amigos e a prioriza\u00e7\u00e3o do status pessoal, ao inv\u00e9s da qualidade do servi\u00e7o prestado. A quem se sente, como eu, prejudicado com a realidade que descrevi, alerto: aperte o cinto, s\u00f3 tende a piorar.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Popularizar a ci\u00eancia est\u00e1 longe de ser um problema. 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