{"id":207,"date":"2020-07-20T20:46:12","date_gmt":"2020-07-20T23:46:12","guid":{"rendered":"http:\/\/ayanagalu.org\/?p=207"},"modified":"2020-07-20T20:46:12","modified_gmt":"2020-07-20T23:46:12","slug":"o-cientista-e-o-opinista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/o-cientista-e-o-opinista\/","title":{"rendered":"O Cientista e o Opinista"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos em um momento de incremento das intera\u00e7\u00f5es virtuais e diminui\u00e7\u00e3o de contatos com espa\u00e7os f\u00edsicos, em que fronteiras institucionais e no\u00e7\u00f5es de pertencimento e compet\u00eancias s\u00e3o menos claras. N\u00e3o \u00e9 a toa que diuturnamente nos deparamos com situa\u00e7\u00f5es de desvio de fun\u00e7\u00f5es e atua\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de suas atribui\u00e7\u00f5es originais de governantes, magistrados, militares, promotores, legisladores, gestores p\u00fablicos, jornalistas, etc. Tem-se a no\u00e7\u00e3o de que ningu\u00e9m mais respeita os limites de suas fun\u00e7\u00f5es, em um misto de necessidade constante de exposi\u00e7\u00e3o e surto onipotente que assume que por alguma raz\u00e3o tudo pode. A internet premia tais comportamentos. Valoriza, como opini\u00e3o e not\u00edcia, a forma, a ret\u00f3rica, a divers\u00e3o, a <em>lacra\u00e7\u00e3o<\/em>, em detrimento da profundidade, confiabilidade e coer\u00eancia. Cientistas, como eu (sim, me considero um e j\u00e1 digo por que), s\u00e3o eficazes em acusar o deslocamento de fun\u00e7\u00f5es que institui\u00e7\u00f5es e personalidades p\u00fablicas assumem no momento, mas ignoram o seu pr\u00f3prio comportamento desviado. Afinal de contas, somos cientistas ou opinistas?<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Estamos na era das <em>lives<\/em>, da profus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es por todo o canto, da reprodu\u00e7\u00e3o de jornais virtuais, da cria\u00e7\u00e3o de postagens chocantes e provocativas dispostas a revolucionar a cabe\u00e7a de quem l\u00ea. S\u00e3o tempos da dissemina\u00e7\u00e3o da criatividade devido a amplia\u00e7\u00e3o das variedades e do acesso a meios em que audiovisual e texto s\u00e3o veiculados e acessados. P\u00f5e nisso tudo ainda uma pitada de ansiedade individual devido \u00e0 reduzida intera\u00e7\u00e3o social f\u00edsica ente as pessoas, um bocado de tempo livre para quem est\u00e1 em casa sem compromissos estipulados e o circo est\u00e1 montado. Todos viraram opinistas. Todos t\u00eam algo relevante a dizer. Todos compartilham, com coment\u00e1rios pretensamente virais, a not\u00edcia mais fresquinha. Todos responderam de forma in\u00e9dita como superar as agruras do nosso tempo. Sim, palmas para a pluraliza\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es e amplia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico de debate, embora a amplia\u00e7\u00e3o seja acompanhada da superficialidade e banalidade. O ponto cr\u00edtico que quero pontuar n\u00e3o \u00e9 sobre o direito de opinar, que deve ser garantido, nos limites da lei. Meu desconforto vem mais especificamente da prolifera\u00e7\u00e3o descontrolada de vozes de cientistas que viraram na realidade opinistas, utilizando a sua autoridade e postura de promotor do conhecimento para opinar sobre qualquer coisa, muitas vezes temas totalmente descolados de sua <em>expertise<\/em> e \u00e1rea de pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cientistas devem ter, sim, compromisso social. Necessitam ponderar a relev\u00e2ncia do que pesquisam e buscar ampliar o impacto dos resultados relevantes de suas atividades, mediante socializa\u00e7\u00e3o do conhecimento e amparo a pol\u00edticas p\u00fablicas. Mas n\u00e3o me refiro a este louv\u00e1vel esfor\u00e7o. Louvo o compromisso p\u00fablico do cientista, mas recha\u00e7o sua transgress\u00e3o ao mero diletantismo e histrionismo. A atitude de ter sempre uma opini\u00e3o a ser propagada, com ares de autoridade, mesmo que tenha pouco a ver com o cerne de seu trabalho investigativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos queremos ser intelectuais. Poderia se tratar de uma op\u00e7\u00e3o pelo perfil filos\u00f3fico ou por uma vertente cient\u00edfica generalista, embora seja muito mais desafiador ser generalista atualmente do que no s\u00e9culo XV, lidamos com muito mais informa\u00e7\u00f5es e de forma muito mais rasa. Ou voc\u00ea conhece algu\u00e9m do seu conv\u00edvio com mais de 5 gradua\u00e7\u00f5es em \u00e1reas variadas do conhecimento e pesquisas cient\u00edficas consolidadas sobre cada uma delas? O conhecimento se desenvolveu, aprofundou e especializou. Como Max Weber j\u00e1 previa no ensaio \u02dcA ci\u00eancia como voca\u00e7\u00e3o\u02dc, de 1917:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><span class=\"has-inline-color has-dark-gray-color\">\u201c[\u2026] a ci\u00eancia atingiu um est\u00e1gio de especializa\u00e7\u00e3o que ela outrora n\u00e3o conhecia e no qual, ao que nos \u00e9 dado julgar, se manter\u00e1 para sempre. A afirma\u00e7\u00e3o tem sentido n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es externas do trabalho cient\u00edfico, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es interiores do pr\u00f3prio cientista, pois jamais um indiv\u00edduo poder\u00e1 ter a certeza de alcan\u00e7ar qualquer coisa de valor verdadeiro no dom\u00ednio da ci\u00eancia, sem possuir uma rigorosa especializa\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/span><span class=\"has-inline-color has-light-gray-color\"> (<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/dp\/B00ZSEUBCA\/ref=dp-kindle-redirect?_encoding=UTF8&amp;btkr=1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">WEBER, Max. Ci\u00eancia e Pol\u00edtica: duas voca\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2011, p. 26<\/a>)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conseguimos ser cientistas de tudo. Como cidad\u00e3os, podemos filosofar livremente (respeitada a autoridade do fil\u00f3sofo), ter opini\u00e3o, conceder opini\u00e3o, nos manifestar, ter um blog. Mas usar a posi\u00e7\u00e3o e autoridade de cientista, professor\/a de tal \u00e1rea, para palestrar, conceder opini\u00e3o sobre tema distante de sua \u00e1rea de pesquisa e <em>expertise<\/em> \u00e9 algo bem diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre fui muito cr\u00edtico do jornalismo varejista, que al\u00e9m de desrespeitoso com o <em>timing<\/em> do cientista, se autoatribui compet\u00eancias de opinar sobre qualquer tema. Mas, em especial na \u00e1rea da pol\u00edtica e economia, o jornalismo se supera. Se para quest\u00f5es de medicina e ci\u00eancias duras, a m\u00eddia costuma entrevistar cientistas especialistas da \u00e1rea, para os temas pol\u00edtico-econ\u00f4micos geralmente basta bons comentaristas profissionais, jornalistas de forma\u00e7\u00e3o. Ignoram a profundidade e especialidade necess\u00e1ria para se analisar fen\u00f4menos econ\u00f4micos, pol\u00edticas e sociais, nacionais e internacionais. Como tais, os comentaristas ou opinistas de ocasi\u00e3o privilegiam a conjuntura, o imediatismo da not\u00edcia fresquinha e, obviamente, a linha editorial do ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o. Ignoram o debate e o lastro de pesquisa cient\u00edfica que cada tema carrega. Mas jornalistas serem assim por of\u00edcio \u00e9 uma coisa, outra \u00e9 os cientistas do nosso tempo emularem o perfil jornal\u00edstico do comentarista\/opinista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ci\u00eancia \u00e9 diferente de opini\u00e3o. Boa ci\u00eancia produz boas opini\u00f5es, no sentido de mais embasadas e met\u00f3dicas. Isso n\u00e3o quer dizer que na atividade cient\u00edfica n\u00e3o h\u00e1 diferentes valores e vis\u00f5es de mundo, pois n\u00e3o existe &#8220;ci\u00eancia sem pressupostos&#8221; (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/dp\/B00ZSEUBCA\/ref=dp-kindle-redirect?_encoding=UTF8&amp;btkr=1\" target=\"_blank\">WEBER, 2011, p. 42<\/a>). Mas os &#8220;fundamentos gerais de nossa orienta\u00e7\u00e3o no mundo&#8221; (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/dp\/B00ZSEUBCA\/ref=dp-kindle-redirect?_encoding=UTF8&amp;btkr=1\" target=\"_blank\">WEBER, 2011, p. 43<\/a>) devem ser acompanhados de um esfor\u00e7o honesto de verifica\u00e7\u00e3o emp\u00edrica sistem\u00e1tica, orientada por clara defini\u00e7\u00e3o e operacionaliza\u00e7\u00e3o conceitual. Mais do que isso, a ci\u00eancia \u00e9 fundada na d\u00favida e verdades provis\u00f3rias e parciais. A opini\u00e3o geralmente carrega apostas mais arriscadas e certezas que v\u00e3o al\u00e9m do esfor\u00e7o cient\u00edfico, ou representariam nesse \u00e2mbito, meras premissas ou hip\u00f3teses a serem testadas. Al\u00e9m disso, ci\u00eancia e opini\u00e3o t\u00eam tempos diferentes. Pesquisa cient\u00edfica leva tempo, envolve muitas pessoas, e tem alto custo. Opini\u00e3o se produz a todo tempo, basta refletirmos e acharmos. Portanto, quando um cientista \u00e9 capaz de comentar e avaliar temas diversos, a toda hora, quase instantaneamente \u00e9 sinal de uma de duas coisas: ou possui tempo, capacidade e recursos invej\u00e1veis que o permite manter pesquisas diversas e aprofundadas sobre muitos temas relevantes ou est\u00e1 sendo mero opinista.<\/p>\n\n\n\n<p>Reitero que o problema n\u00e3o \u00e9 emitir opini\u00e3o em si, a despeito dos casos que monopolizam nossa <em>timeline <\/em>ou notificam a todo momento grupos de <em>Whatsapp<\/em>. Todos temos direito de nos manifestar respeitosamente e os incomodados que saiam do grupo ou silenciem o amigo indesej\u00e1vel. O problema, como dito, \u00e9 sermos opinistas com a cara de cientista, usando selo institucional, recursos de institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e o r\u00f3tulo de especialista na tem\u00e1tica. Sejamos opinistas com convic\u00e7\u00e3o quando for o caso e cientistas quando tivermos as devidas compet\u00eancias. Essa honestidade acad\u00eamica pode trazer mais humanidade e transpar\u00eancia \u00e0 ci\u00eancia, v\u00edtima de tantos ataques e descr\u00e9dito nos tempos de hoje.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos em um momento de incremento das intera\u00e7\u00f5es virtuais e diminui\u00e7\u00e3o de contatos com espa\u00e7os f\u00edsicos, em que fronteiras institucionais e no\u00e7\u00f5es de pertencimento e compet\u00eancias s\u00e3o menos claras. N\u00e3o \u00e9 a toa que diuturnamente nos deparamos com situa\u00e7\u00f5es de desvio de fun\u00e7\u00f5es e atua\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de suas atribui\u00e7\u00f5es originais de governantes, magistrados, militares, promotores, legisladores, gestores p\u00fablicos, jornalistas, etc. Tem-se a no\u00e7\u00e3o de que ningu\u00e9m mais respeita os limites de suas fun\u00e7\u00f5es, em um misto de necessidade constante de exposi\u00e7\u00e3o e surto onipotente que assume que por alguma raz\u00e3o tudo pode. A internet premia tais comportamentos. Valoriza, como opini\u00e3o e not\u00edcia, a forma, a ret\u00f3rica, a divers\u00e3o, a lacra\u00e7\u00e3o, em detrimento da profundidade, confiabilidade e coer\u00eancia. Cientistas, como eu (sim, me considero um e j\u00e1 digo por que), s\u00e3o eficazes em acusar o deslocamento de fun\u00e7\u00f5es que institui\u00e7\u00f5es e personalidades p\u00fablicas assumem no momento, mas ignoram o seu pr\u00f3prio comportamento desviado. 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