{"id":366,"date":"2024-05-07T10:30:34","date_gmt":"2024-05-07T13:30:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ayanagalu.wordpress.com\/?p=366"},"modified":"2025-02-20T21:01:46","modified_gmt":"2025-02-20T21:01:46","slug":"o-diluvio-que-salvara-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/o-diluvio-que-salvara-o-brasil\/","title":{"rendered":"O Dil\u00favio que Salvar\u00e1 o Brasil?"},"content":{"rendered":"<p>Muitos profissionais ascendem com a trag\u00e9dia. N\u00e3o por oportunismo, mas justamente pela particularidade da sua voca\u00e7\u00e3o. Jornalistas que cobrem trag\u00e9dias, crises e guerras acabam ascendendo em sua profiss\u00e3o. Pol\u00edticos que enfrentam grandes crises com convic\u00e7\u00e3o e serenidade, guerreiros que travam batalhas cruciais para defender projetos pol\u00edticos e vidas, profetas que se tornam m\u00e1rtires pelo seu sacrif\u00edcio, volunt\u00e1rios que largam tudo o que fazem para colocar a sua vida em segundo plano e ajudar o pr\u00f3ximo. Todos s\u00e3o  bons exemplos de como podemos transformar a nossa for\u00e7a e voca\u00e7\u00e3o em recursos para a supera\u00e7\u00e3o individual e amparo coletivo. S\u00e3o her\u00f3is reconhecidos e an\u00f4nimos, cuja imagem e legado significam a for\u00e7a que temos para a supera\u00e7\u00e3o de nossos traumas. <\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>capacidade de nos reconstruirmos no desespero <\/strong>sempre encantou a filosofia e, posteriormente, as ci\u00eancias humanas e sociais. S\u00e3o v\u00e1rias as raz\u00f5es para isso ocorrer, mas uma delas \u00e9 mais relevante para a moral social. O ato de erguer her\u00f3is \u00e9 sempre uma compensa\u00e7\u00e3o, uma homenagem para honrar os nossos que se foram ou que perderam tanto. E importa muito quem s\u00e3o os nossos e como ser\u00e3o lembrados.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como superaremos o nosso trauma?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Vamos come\u00e7ar pelo \u00faltimo ponto: <strong>como lembraremos, honraremos e superaremos o nosso trauma?<\/strong> Sejamos francos agora. O desastre civilizacional-ambiental no Rio Grande Sul n\u00e3o pode ser lembrado apenas pela destrui\u00e7\u00e3o, desamparo, embara\u00e7o, e, ainda sim, orgulho pelo esp\u00edrito voluntarista dos humanos. Nem tamb\u00e9m pelo surgimento da <a href=\"https:\/\/observer.com\/2020\/08\/gotham-city-christopher-nolan-dark-knight-films-batman-begins\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Gotham City<\/a> <a href=\"https:\/\/images.app.goo.gl\/Qmd9afr9yVtGiJtz8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">brasileira<\/a>. A paradoxal Porto Alegre, que agora <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=n5hXO0v0Vf4&amp;ab_channel=iCastellano-Topic\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;de alegre n\u00e3o tem nada&#8221;<\/a>, em total escurid\u00e3o, aus\u00eancia do Estado e colapso mental. Tampouco, por pessoas vivendo em seus carros por dias estacionados em viadutos, engarrafamentos de tipo apocalipse zumbi e cidades inteiras completamente varridas do mapa.<\/p>\n\n\n\n<p>Como toda a injusti\u00e7a produz luta, toda a guerra produz paz e toda a trag\u00e9dia produz acolhimento, esse desastre tamb\u00e9m gerar\u00e1 novos her\u00f3is. E candidatos existem aos montes. O voluntarismo de todos s\u00e3o sinais claros da capacidade de coopera\u00e7\u00e3o da humanidade quando mobilizada. Para o contexto do Brasil, o mais impressionante \u00e9 que todos os espectros pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos se mobilizaram para salvar qualquer ser vivo consciente pelo caminho. Mas o m\u00e9rito de elevar os vitoriosos e honrar os perdidos \u00e9 est\u00e9ril se ningu\u00e9m der relev\u00e2ncia ou compreender o seu significado. O verdadeiro her\u00f3i que pode alongar a existencia dos demais \u00e9 o Estado que se reconstr\u00f3i depois do desastre.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria das vezes percebemos que esta reconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 sustentada na cria\u00e7\u00e3o de culpados, dos ditos bodes expiat\u00f3rios. \u00c9 claro, exceto quando eles n\u00e3o existem ou quando est\u00e3o em n\u00f3s mesmos, de forma impessoalizada. O Jap\u00e3o \u00e9 o exemplo mais not\u00f3rio disso. Mesmo bombardeado com incont\u00e1veis toneladas de armas termob\u00e1ricas e depois um par de nucleares, nunca culpou publicamente o seu ocupante. O compreendeu e investiu todos os seus esfor\u00e7os na sua reconstru\u00e7\u00e3o, na capacidade de ser um povo que mostra que a reconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. E o que \u00e9 melhor para um vitorioso culpado do que construir a sua pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Desde que o Brasil se traumatizou com o que produziu com seu<em> hermano<\/em> Paraguai, a vit\u00f3ria significou culpa e a constante securitiza\u00e7\u00e3o interna. N\u00e3o \u00e9 atoa que durante toda a resultante Rep\u00fablica, os nossos militares tiveram tantas oportunidades para securitizar seus pseudo inimigos: a monarquia, o vizinho, o povo e os ditos comunistas. Agora \u00e9 a vez do povo. E a prioridade do povo \u00e9 sobreviver ao trauma. Para isso nenhuma securitiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja a ambiental ser\u00e1 bem-vinda. O nosso Plano Marshall dom\u00e9stico n\u00e3o precisa ser construindo contra o fantasma do comunismo. Ele pode ser fundado na simples supera\u00e7\u00e3o do trauma da nossa ignor\u00e2ncia e arrog\u00e2ncia na rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quem ser\u00e1 honrado e quem se comprometer\u00e1?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A sociedade civil organizada tem demonstrado a sua capacidade excepcional de mobiliza\u00e7\u00e3o no desastre do RS. E o que \u00e9 o Estado se n\u00e3o o seu povo organizado? Mas por que o Estado muitas vezes n\u00e3o \u00e9 organizado efetivamente em prol de interesses comuns? Por que atores pol\u00edticos priorizam projetos particulares em detrimento dos interesses do povo? Por que a elite econ\u00f4mica e intelectual os apoiam em prol dos seus interesses, desligados dos do povo? Mas, por algum acaso, o que acontece quando o desastre, assim como a guerra, n\u00e3o diferencia ricos e pobres, intelectuais e analfabetos? E assim chegamos ao primeiro ponto, <strong>quem s\u00e3o os nossos que devem ser lembrados e quem se comprometer\u00e1?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A escala dos esfor\u00e7os para honrar v\u00edtimas e her\u00f3is \u00e9 proporcional aos poderes de quem honra. E quando \u00e9 a elite econ\u00f4mica e racial que est\u00e1 sendo honrada, seriam as honrarias capazes de mover montanhas? Seriam capazes de mobilizar a elite econ\u00f4mica brasileira, o capital financeiro e os meios de comunica\u00e7\u00e3o neoliberais &#8211; em outras palavras, a <a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/books\/edition\/Depend%C3%AAncia_e_desenvolvimento_na_Am%C3%A9ri\/2tywpzUU_YoC?hl=pt-BR&amp;gbpv=0\">economia do enclave<\/a>? Se sim, estariam eles dispostos a abrir m\u00e3o de sua compuls\u00e3o pela acumula\u00e7\u00e3o indiscriminada de capital para iluminar a mem\u00f3ria de seus semelhantes?  Chegariam a se sensibilizar tanto a ponto de rever seus pre(con)ceitos econ\u00f4micos sexagen\u00e1rios, que propagam ajustes econ\u00f4micos estruturais e ortodoxia fiscal-monet\u00e1ria para quem quer que assuma qual quer que seja o governo? Concederiam direito ao Estado investir efetivamente no que deve e onde ningu\u00e9m mais faria com a m\u00ednima continuidade, efici\u00eancia e justi\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 cedo afirmar que o ambientalismo pode salvar o Brasil. Ou, que ele far\u00e1 com que os agentes cientes e inconscientes da nossa economia de enclave permitam o Estado cumprir o seu papel de servir a todxs. De investir pesadamente o que recolhe de n\u00f3s em tecnologia, educa\u00e7\u00e3o, cultura ambiental, ci\u00eancia, obras de mobilidade, seguran\u00e7a cidad\u00e3 e pol\u00edticas p\u00fablicas para todos. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de permitir o disp\u00eandio de recursos pelo Estado ao inv\u00e9s de dar de bandeja os impostos que pagamos aos juros do mercado financeiro e aos desonorados fiscais. \u00c9 uma necessidade nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez n\u00e3o seja por acaso que muitas religi\u00f5es que fundaram grandes civiliza\u00e7\u00f5es tenham constru\u00eddo a sua hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o a partir de mitos de sobreviv\u00eancia de seus antepassados a um dil\u00favio de propor\u00e7\u00f5es inconceb\u00edveis. As institui\u00e7\u00f5es que se seguiram sempre honraram os que se foram e os que sobreviveram como uma sociedade baseada em novos valores. Hoje no Brasil n\u00e3o precisamos nos ater a mitos, basta entendermos a nossa dor e a transformarmos em constru\u00e7\u00e3o de algo novo e melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quest\u00e3o de colocar na prioridade do nosso pa\u00eds um desenvolvimento efetivamente integrado \u00e0 natureza, e n\u00e3o oposto a ela. Um novo modelo de habita\u00e7\u00e3o humana em cidades, capitais e interioranas, no mundo atual da era das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Para isso precisamos investir pesado em um novo modelo de desenvolvimento. Um que n\u00e3o se oponha, mas respeite os espa\u00e7os e as necessidades da natureza, da qual somos parte integrante. Um modelo que honre os afetados pelo desastre que ainda vemos e vivemos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ato de erguer her\u00f3is \u00e9 sempre uma compensa\u00e7\u00e3o, uma homenagem para honrar os nossos que se foram ou que perderam muito. E importa muito quem s\u00e3o os nossos e como eles ser\u00e3o lembrados. Por Igor Castellano<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":370,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[21,24,64,118,148,151,169],"class_list":["post-366","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ayan-agalu","tag-ayan-agalu","tag-brasil","tag-enchentes","tag-meio-ambiente","tag-politica","tag-porto-alegre","tag-sociedade"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/igorcastellano.com\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/insta_20240507_diluvio.png","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=366"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":678,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366\/revisions\/678"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/370"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=366"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=366"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/igorcastellano.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=366"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}